Meninos se vão, meninas se vão,
mocinhos se vão, mocinhas se vão, velhinhos se vão, velhinhas se vão e sempre é
cedo demais para quem fica, porque nunca dissemos tudo o que deveríamos ter dito.
Não ouvimos o suficiente. Parece que o essencial se perdeu, nós não
demonstramos. Tinha sempre uma ponta de orgulho lá, cobrindo a nossa face
verdadeira, feito a máscara de monstro com a qual brincávamos na infância. Quem disse o quanto foi importante ter saído
do trabalho e encontrar o outro para comer umas esfihas com tubaína, hein? Isto
salva uma vida. O mundo é grande e cheio de gente. Encontro é uma palavra
poderosa, estala na língua. Dividir sonhos e angústias, encanações sexuais e
tudo o mais. Precisamos ser pacientes um com o outro como duas crianças
perdidas numa floresta em noite de tempestade: viver é mais imprevisível ainda.
Escolhemos um caminho, nos programamos, imaginamos um final, mas, no meio,
somos arrastados por forças poderosas. Todo dia é um tsunami, todo dia um Katrina.
Tão imenso universo, dói a cabeça de pensar, infinito é mais longe ainda. Que
Deus poderia imaginar que este planeta minúsculo, esta bolinha de gude que esfriou
um pouco mais e criou algum musgo por cima, poderia abrigar tantas histórias
extraordinárias? Não no corpo que habitamos, mas na história de nossas vidas
somos maiores que os deuses, maiores que o universo imenso e o sem-fim. De que
vale o big ben, um buraco negro, o infinito, diante do choro de uma criança? De
um cachorro atropelado? De um rostinho sujo que espera o pai, e o pai não vem,
o pai nunca vem, não há pai, nem paz, somos todos filhos do acaso como qualquer
menino de rua. Sim, meninos se vão, meninas se vão, mocinhos se vão, mocinhas
se vão, velhinhos se vão, velhinhas se vão e é sempre cedo demais, porque mesmo
a velhinha ainda leva no corpo a menina que foi, a menina que é, aquela que
anseia sempre por aprovação e importância. Dia desses fui ver a Lygia Fagundes
Telles falar e ela falava como uma menina, faceira e terna feito uma adolescente.
Sou um homem simples que não espera mais que um café quente e um sorriso, mas
não aceito injustiça, nenhum tipo de injustiça e, para mim, não há injustiça
maior que a Morte e é por isto que escrevo. Para onde vão as histórias das
pessoas quando o corpo que as abrigava não está mais aqui? Será que nossa vida
é mesmo sempre bela, breve e inútil, como as luzes que piscam nas árvores de
natal, em casas do subúrbio, a cada final de ano? Cada piscar um emaranhado de
sonhos de grandeza, de mesquinharia e desejo que se acende e se apaga. Plin! E lá se foi uma vida em meio ao
rio que nunca nasce e que não encontra mar. Plin!
E lá se foi a menina que um dia sonhou ser poeta e foi fotografada tranquila e
ingênua no capô de um fiat 147. Plin!
E lá se foi Rogério, gnomo mais triste do mundo, com seus acordes certeiros no
baixo e o índio de cartola tatuado no braço! Plin! E lá se foi Daniel, a ferida que sonhava sempre a cicatriz. Bom
dia. Beijo para quem é de beijo, abraço para quem é de abraço. Hoje faz sol
depois de uma semana de chuva, mas Scarlet Moon morreu. Eu não a conhecia, mas
conheço sua história de amor com Lulu Santos, parceiro com o qual ela foi casada por 28 anos. Uma única história
de amor é a finalidade e, ao mesmo tempo vale mais, que todo o universo. O
homem, meus amigos, não é o Senhor do ente, Poder é ilusão, o homem é o pastor
do Ser. Meninos se vão, meninas se vão, mocinhos se vão, mocinhas se vão,
velhinhos se vão, velhinhas se vão, mas não em vão. A terra se torna sempre um
pouco mais fria e misteriosa quando cada um de nós parte, mas reaquece no
instante seguinte, no choro que estreia o pulmão do amanhã.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Quase-Hermes
Não é exagero dizer
que o ser humano é um ser hermenêutico. Tornamo-nos humanos à medida que
compreendemos e interpretamos o mundo que nos cerca e compreendemos e
interpretamos a nós mesmos. Há um corpo... Há um cérebro... Há um fígado... Um
coração... Um rim... Para a ciência, somos feitos de átomos, mas isto apenas não
nos define, somos feito, sobretudo, de histórias. É na palavra que o homem faz
morada (Poeticamente, o homem habita) e a natureza até então viva,
mas silenciosa se abre para compreender-se, refletir-se e cantar-se. A palavra
é a fenda e o espelho em frente, por meio do qual a natureza se observa, se
interpreta e se admira. Não fosse o homem, e o homem é linguagem, as coisas
todas ainda estariam aí, os planetas em suas rotas, os pássaros nas árvores, o
oceano em seu berço, mas não saberiam, elas, as coisas, apenas seriam, sem
jamais saber que são. “A linguagem é a casa do ser”. (HEIDEGGER, Carta sobre o
Humanismo, p.8).
Nós, que nascemos no final do século XX, fomos
lançados do ventre materno para um mundo dado. O conhecimento já estava aí, os
livros já estavam aí. Nós nos tornamos gente à medida que interpretamos o mundo
ao nosso redor e que vamos construindo nossa identidade, melhor, nossa alma,
enquanto somos rasgados pelo saber, pelas obras, pelas histórias que nossos
antepassados mais remotos produziram. Isto que somos torna-se um eu à medida
que é atravessado pelo mundo, pelas produções humanas e que reflete sobre o
mundo e sobre si mesmo. Nós somos um diálogo. Compreender não se separa da
vida, mas adere à vida e a transpassa em todos os momentos. Compreender é nossa
atitude mais primária, o bebê compreende o olho da mãe. Compreender não é uma
atividade que se faz trancado num escritório ou laboratório, observando o rio à
distância. No momento em que nos afastamos da coisa, nós a perdemos e se depois
a explicamos cientificamente é porque ela, a coisa, já tinha desaparecido.
Explicamos sem ter compreendido. Se vamos falar de vida e, a nosso ver a
questão primordial é onde está a vida?, então o imperativo não é o olhe o rio,
mas entre no rio, coloque os pés na água, sinta o frescor e a turbulência, o
musgo verde no fundo, o cheiro de lírios e os gritos dos afogados.
“A compreensão não vem depois da
vida, mas a permeia em seus momentos todos. Compreendemos o outro quando com
ele falamos; uma ferramenta quando a utilizamos; os acontecimentos cotidianos
quando nos atingem; o ambiente ou o mundo em que vivemos.” (NUNES, Ensaios
filosóficos, p. 270).
A obra é viva, é vida, se vamos falar da obra, então
o imperativo não é observe a obra, conte as palavras e os tijolos, procure no
dicionário os trezentos significados possíveis, mas sim: penetre a obra e seja
por ela penetrado. Um provérbio zen diz “o sábio aponta a lua, mas o tolo olha
para o dedo”, eu completaria; e ainda reclama da cutícula. Parece ser este o
trabalho crítico que temos feito, reclamar da cutícula no dedo. É preciso
penetrar a obra - que é atemporal e vive no eterno presente da origem, com suas
raízes fincadas no solo da Arte - pela porta de nosso tempo, ano de 2013 da era
comum e deixar que a porta permaneça aberta para que a obra fale uma vez mais. O
homem é um ser hermenêutico e a Arte é a mais encantadora das produções
humanas.
Bibliografia:
HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o Humanismo. Trad. Rubens Eduardo Farias. São Paulo: Centauro
Editora, 2010.
NUNES, Benedito. Ensaios filosóficos. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Uma entrevista
(ACIBEL): Quando descobriu que tinha vocação para ser escritor? Fale um pouco de seu início nas escritas.
(DANIEL LOPES): R: Antes de tudo era o desencaixe. A sensação de espanto diante do mundo. Lembro de uma vez que estava na igreja com minha mãe, ela era catequista, e fiquei espantado de ela existir e ser alguém, e ter um rosto, uma personalidade e de estarmos ali, naquele exato lugar, naquele exato momento, lançados neste planeta doido e doído, e eu me perguntava: pra quê, afinal de contas? Não seria mais natural o nada? Por que existíamos e sabíamos, e tínhamos certeza, de que um dia não existiríamos mais? Enquanto o homem é, está na aporia da morte. Foi o que desesperou Buda. Se eu fosse um homem de fé verdadeira, se tivesse certeza de que Deus existe, então tudo estaria resolvido, e eu talvez não escrevesse uma linha sequer, mas não consigo acreditar com este fogo. Todas as coisas podem não ser mais que mera coincidência. Talvez não tenha sentido algum as milhares de pessoas que já pisaram neste planeta e sofreram, e amaram, e morreram e... Drogas... Alcoolismo... Incestos... Amores mal resolvidos... Mais incestos... Humilhações... Assassinatos... A minha escrita é só o registro, com sangue e plasma, deste desconforto: a materialização de tantas questões que, apesar de tudo, não podem ser respondidas, sequer formuladas com palavras. Talvez a música toque. A escrita, entretanto, começou efetivamente na adolescência, em vários cadernos que eu preenchia, só porque registrar a angústia aliviava. Não há respostas, só o constante arranhar a face do enigma.
(ACIBEL): Em seus livros você gosta de usar uma ordem cronológica ?
(DANIEL LOPES): R: Não, não me preocupo com o tempo ou com questões formais. Tanto pode haver uma ordem cronológica como não. Minha preocupação não é inovar a prosa, mas tocar o plasma, o humano. Não é uma literatura para a cabeça, mas para o espírito. Não quero ser inovador, quero ser verdadeiro, embora, às vezes, para ser verdadeiro, precisemos inovar. Mas não vem de fora para dentro e sim de dentro para fora.
(ACIBEL):Ao escrever PIANISTA BOXEADOR buscou inspiração em alguma historia cotidiana ou usou alguma técnica que facilitasse a criação?
(DANIEL LOPES): R: Acredito que o artista parte do cotidiano, mas enxerga o interior das coisas onde os outros enxergam a casca. Van Gogh só precisava de um girassol murcho e de seu próprio quarto pra revelar sua verdade. O artista enxerga o brilho de todas as coisas e percebe nelas portas para o Absoluto, uma espécie de panteísmo no qual tudo é santo. Para o arquiteto, ou engenheiro, ou político, uma janela é só uma janela. Para o artista, a janela pode ser o lugar onde um cachorrinho vira-latas esperava o dono todos os dias voltar da escola, até o dia em que o dono morreu atropelado e o cachorrinho continuou esperando. A Arte, a literatura, são humanas e o humano tem o dom de Mundificar a Terra, Larificar a Casa, enfim, encher de sentido a matéria, a primeira vista, opaca. Um balanço seria só um balanço, não houvesse crianças, a madeira seria para sempre opaca, mas o menino pode brincar nele e sonhar, enquanto vai e vem, e sentir saudades do pai separado que não o visita há muito tempo. Tanto o médium quanto o artista podem perceber isto. Também se pode tomar um ácido, ou ler Heidegger... Nosso planeta está destruído porque expulsamos o sagrado para o além. Começou com Platão e o processo só se intensificou com o cristianismo, que Nietzsche dizia não ser mais que platonismo para a ralé. Tinha razão. As sociedades primitivas respeitam cada árvore porque todas elas SÃO. Nossos Deuses estão no além, a Terra é o domínio do Mal, consequência da metafísica, podemos destruí-la de consciência tranquila. Jeová ainda fazia suas visitas à Terra, depois silenciou, retirou-se.
(ACIBEL): O livro PIANISTA BOXEADOR traz em seus trechos partes interessantes de um personagem que retrata sua realidade e algumas vezes ficções, como "... ver brotar na sua barriga ... um botão de rosa" , há alguma momento em que você fica em duelo entre continuar a escrever com essa riqueza que traz a ficção ou escrever mais sobre a realidade?
(DANIEL LOPES): R: O que é a realidade? A imaginação é parte da realidade. Não é o mundo historicamente instituído, ou o que é científico, que é real. A desgraça de nosso tempo é que as crianças já nascem científicas. O real é o mundo que se constrói sobre a Terra. Os pré-socráticos chamavam de physis o abraço entre o ser e o ente, não havia uma separação metafísica entre o transcendente e o temporal. O mundo não era opaco, pois tudo tinha o brilho de ser e de abrir-se para o Ser. Não é o racional que é real. Não é o científico que é real. Não é o social que é o real. O real é o Todo. Neste sentido, sou o mais realista dos escritores. Ainda que seja um péssimo escritor, sou um um bom amanuense e vejo coisas que enganam a lógica e driblam a razão.
(ACIBEL):O que o leitor pode esperar de mais surpresa no livro e onde adquiri-lo?
(DANIEL LOPES): R: Antes de terminar, gostaria de agradecer profundamente à Acibel. O que o leitor pode esperar do livro é que não seja um artifício técnico, ou uma mentira bem embalada. Foi um livro escrito por um homem, não por um autor. Durante a revisão, cada palavra que precisava ser cortada, era como uma parte do meu próprio corpo que era arrancada. Não moro só no corpo, moro no que vejo e no que escrevo. O livro é um abraço, um amigo que espera o encontro com aqueles que passaram pelos mesmo lugares. Pianista Boxeador pode ser comprado pela internet em quase todas as livrarias ou no site da editora Confraria do Vento.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Talvez, matéria e memória
(Claudio Brites, Terracota 2013)
O
que é a memória? Seria uma função fisiológica como outra qualquer? Se
pudéssemos abrir um cérebro em plena atividade e observar como funciona,
saberíamos exatamente o que o indivíduo está pensando? Que lembranças evoca?
Que imagens as sinapses cerebrais produziriam? É certo que as funções mentais e
psíquicas estão relacionadas, mas seriam exatamente a mesma coisa? Um vestido pendurado num prego estão relacionados; se tiramos o prego, o vestido cai; se
mudamos o prego de lugar, o vestido vai junto, mas o vestido não é o prego, ou
é? Para o filósofo francês Henri Bergson a memória é o elo entre a matéria e o
espírito, o corpo e a alma. No livro Matéria
e Memória, Bergson escreve: "Ora, desde que pedimos aos fatos indicações
precisas para resolver o problema, é para o terreno da memória que nos vemos
transportados. Isso era de esperar, pois a lembrança – conforme procuraremos
mostrar na presente obra – representa precisamente o ponto de intersecção entre
o espírito e a matéria”.
É este continente impreciso, a
lembrança, a memória, que Claudio Brites investiga em seu primeiro romance, Talvez (Terracota, 2013). O autor não constrói, como era de se esperar em
se tratando de matéria tão evanescente, um romance linear, pelo contrário;
assim como a própria memória é feita de recortes, o romance é composto por fragmentos.
Em vez da palavra definitiva, que rotula sem deixar margens para o virtual, tão
em voga na literatura contemporânea, Claudio adere à palavra sugestiva, como se
o narrador também encontrasse a história na medida em que escreve.
O enredo nos conta a história de Pedro,
um homem que tenta reconstruir/recuperar seu passado antes que ele se perca de
vez. O narrador–protagonista, entre outras coisas, rememora seu pai, o tempo do
serviço militar, uma mulher possivelmente assassinada na Avenida Paulista,
centro financeiro do país... Estes acontecimentos resumiriam sua existência?
Seriam o mais importante em sua vida? Talvez, talvez.
A investigação da memória não é um
tema literário novo, pelo contrário, autores poderosos, de Borges a Proust,
modelaram sua obra em cima desta mesma matéria. O diferencial do livro de Brites
é a linguagem enxuta, incisiva, popular, que chega mesmo a flertar com o brega.
Livro para lá de interessante, que
li numa sentada só.
Recomendo.
Abaixo, o parágrafo que abre a
narrativa como degustação:
“A memória é uma caixa de sapatos
cheia de recortes. A minha está à deriva em uma enchente. Fico pensando até
quando o papelão irá aguentar e então se desfazer e o papéis afundarão, as
cores, as letras, tudo borrado ao ponto de virar a resma de um celulose
primeira.”
Não se esqueça de sobrepor áudios ao
ler.
quarta-feira, 13 de março de 2013
Ventríloquo sem Deus
"A esperança é um urubu pintado de verde"
Mário Quintana
É a mentira que nos mantém em pé
e funcionais. No mesmo instante em que provaram do fruto da árvore do
conhecimento, Adão e Eva provaram também do fruto do delírio. Ao abrir-se no
primeiro macaco para se tornar espelho, a natureza também impregnou tal macaco
de sonho para que ele pudesse suportar. Sem o delírio entrelaçado à razão, o
ser humano não resistiria, não seria possível. A mentira é necessária tanto no
pensamento metafísico: Deus, quanto no pensamento cotidiano: cortesia.
Por outro lado, o humano é sempre
insolúvel, está o tempo todo nas antípodas de si mesmo. Ainda que se mantenha
de pé sustentado pela mentira, busca, feito um onanista obcecado, a verdade. Na
ânsia da verdade, os homens, aqueles que se julgam os melhores da espécie,
assassinam as divindades e colocam a si mesmos no lugar. É trocar um cadáver
por outro, como disse Cioran. Se Deus é um delírio, delira ainda mais quem
sonha tomar seu lugar na eternidade, ter o nome escrito sobre o nome de todos
os outros homens, alcançar a imortalidade sem precisar de um céu, ou de um
além. Toda empreitada humana é fruto deste delírio... Esquecemos um único
detalhe, o planeta-palco onde a comédia é encenada é menor que um grão de
areia. Nenhuma criação humana, nem mesmo a pintura de van Gogh, nem mesmo a
música de Beethoven, é destinada a durar. A essência de tudo é a
transitoriedade, mas o homem não aceita, quer cravar uma estaca no peito do
tempo e travá-lo, matá-lo, diluí-lo, rir na cara da morte acorrentada.
Impossível. Menos no mito, no símbolo, nas
asas do macaco, mas tomamos o caminho contrário, cortamos nossas próprias asas,
quebramos a natureza como se quebra um ovo e a gema é oca, o centro é vazio. O
processo de mapeamento do mundo está avançado. Agora falta pouco para
descobrirmos o que o budismo e o taoísmo sempre souberam: o vazio é a forma e a
forma é o vazio.
Não somos feitos só de átomos,
somos feitos sobretudo de histórias. O mito de Édipo não é encenação de um
papai-mamãe, pornografia que não excita mais nem a pré-adolescentes. Freud
delirou e impôs seu delírio ao mundo, não há definição melhor para gênio. Édipo
Rei é a mais perfeita alegoria da condição humana, mas por outros motivos.
Somos sagazes, astutos, espertos, desvendamos todos os mistérios. A esfinge
desmorona diante da nossa inteligência. Seguimos sempre adiante, ainda que
pressintamos a noite e o gelo. Nosso projeto é desvendar o Ser, dissecá-lo,
destituí-lo de símbolos, de mistérios, ainda que a verdade nos destrua. O homem
de depois de amanhã é ao mesmo tempo Deus e Espectro e vaga oco sobre um
planeta destruído.
A única solução é dormir e a
insônia não deixa.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Nietzsche: um cristão autêntico
O Jovem Friedrich
Há algo que sempre me intrigou quando se trata da vida e obra de Nietzsche, esse filósofo que usou a vida como experiência do pensar: o abismo que há entre o Nietzsche empírico, andarilho, filho, enfermo, irmão e o Nietzsche pensador que emerge principalmente em sua autobiografia, Ecce Homo. Por vezes, tenho a impressão de que Nietzsche (que, segundo Rüdiger Safranski, seu biógrafo, era chamado pelos colegas na escola de o pastorzinho) construiu toda sua filosofia, principalmente nos últimos anos, ao contrário do que realmente era, negando suas taras. É preciso farejar o que está além das aparências, como o próprio filósofo fez com os ideais ascéticos em Genealogia da Moral. Fazer com o filósofo-dinamite o que, segundo Deleuze, ele mesmo era mestre em fazer: um filho pelas costas. Olhá-lo com olhos de psicólogo.
Seguindo a teoria das forças, Nietzsche é dois e é dez, palco onde inúmeras feras encenam uma comédia trágica, “prefiro ser um sátiro antes que um santo”. A pergunta que gostaria de fazer é: qual dentre os diversos Nietzsche que disputam a soberania no si-mesmo de Friedrich se sobressairia? Qual seria o vencedor? O déspota? Nietzsche era mestre em disfarçar o que julgava serem fraquezas. Em, Ecce Homo, deixa a seguinte pista falsa: “se combati o cristianismo, foi porque dessa parte não vivenciei fatalidades nem inibições.” Mentira. Poucas páginas adiante ele mesmo aponta seu ataque à moral cristã como sendo necessário para superar uma fraqueza: a tendência à compaixão, essa força dos fracos. Será que superou? E o incidente com o cavalo pouco antes do surto final?
Em um de seus aforismos, Cioran escreve: “Só os indivíduos rachados possuem aberturas para o além”. Creio que Nietzsche vivia, como um pêndulo, entre forças opostas: Nobreza e Ressentimento, Atenas e Jerusalém, Cristo e Dioniso, Vida e Morte, nunca houve uma superação de fato das dicotomias. Ele mesmo escreve: “A felicidade de minha existência, sua singularidade, talvez, está em sua fatalidade: para exprimi-lo em forma de enigma, eu, como meu pai, já estou morto, como minha mãe, vivo ainda e envelheço.” Se houve, por fim, um instinto dominante, acredito que foi o do ressentido. É simples, admiramos e almejamos aquilo que não temos. Nietzsche escreveu nas antípodas do que de fato era. Quis pensar, morar no corpo: “É melhor que ouçais, meus irmãos, a voz do corpo são: é esta uma voz mais honesta e mais pura. Com mais honestidade e mais pureza fala o corpo são, o corpo perfeito e retangular: e fala o sentido da Terra”. Quem lesse este fragmento sem saber que caos o deu a luz, imaginaria se tratar do texto de um grego da época de Homero, mas o autor, em verdade, era um doente. O próprio Nietzsche inventaria um conceito que serviria de ponte sobre sua cisão, o conceito de “grande saúde”, mas o que explicaria o colapso final? Não há nada que o autor de Zarathustra critique mais que aquilo que ele julga serem características do cristão, do último homem: a vingança, a astúcia, o feminino, a inveja, o ressentimento. No entanto, consta que, quando leu Memórias do Subsolo, de Dostoiévski, (o livro cujo narrador mais se nos assemelha a uma barata que a um ser humano) anunciou empolgado: “Ouço aqui a voz do sangue!” Seria o filósofo alemão um cristão autêntico?
Para responder à pergunta, voltemos à infância, esse país de onde tudo brota: 1856, 1855, 1854? Não. 1853, 1852? Ainda não. 1851? 1850? 1849? Sim, 1849? Quem reparou nos olhos do menino de cinco anos vidrados no pai que realiza com verdade e pureza uma de sua últimas pregações sobre o púlpito? De onde vem a idolatria de Nietzsche pelo pai? Quando se trata de Karl Ludwig, Friedrich Nietzsche parece estar falando de um anjo, de um ser etéreo, todo espírito. Será que não nasce a partir da morte do pai seu rompimento com Deus e com o cristianismo, porque ambos permitiram que seu velho passasse desta para melhor? Será que o pequeno Friedrich, sobretudo Friedrich, não rezou com toda sua fé e vontade, sozinho à noite, pela cura ou volta de seu pai e, no entanto, tudo se mostrou em vão? Deus é sempre mudo, não há, nunca houve. Ainda assim, por mais que intentasse, anos mais tarde escrever um Anticristo, escreveu muito mais um Antipaulo.
Um dionisíaco brasileiro, Glauber Rocha, disse certa vez: “Não me exijam coerência, sou um artista”. Cabe muito bem aqui. Uma das características fundamentais de Nietzsche era homenagear com o martelo, destruindo, não seria a implosão do cristianismo seu grande monumento ao mesmo?
O cristão autêntico é um ser cindido (raskólnikov em russo) corpo e espírito inconciliáveis. Nietzsche construiu toda uma filosofia ao contrário do que era, baseada no seu eu, ou vasto, ou si-mesmo, ideal. Seu espírito era Schopenhauer, mas seu canto dissimulava ser Emerson. Nunca perdoou a razão por ter destruído sua fé. Vingou-se. Quis morar no corpo, mas o corpo era o contrário da sua filosofia. Segundo sua própria fisiologia, quando o espírito está fraco, o corpo adoece. Em verdade, em verdade vos digo: um santo Agostinho sem conversão. Tivesse gritado adoração ao Cristo crucificado, seria um santo da igreja católica apostólica romana. Ou não?
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
O potro selvagem
Horácio Quiroga*
Era um cavalo, um
potro de coração ardente, que veio do deserto para a cidade com o intuito de
viver do espetáculo de sua velocidade.
Ver aquele animal
correr era de fato um espetáculo considerável. Corria com a crina ao vento e o
vento em suas narinas dilatadas. Corria, estirava-se; estirava-se ainda mais e
o estampido dos seus cascos sobre a terra não se podia mensurar. Corria sem
regras nem medida, em qualquer direção do deserto e a qualquer hora do dia. Não
existiam pistas para a liberdade de seu galope, nem normas que pusessem margem
à sua energia. Possuía extraordinária velocidade e um desejo ardente de correr.
De modo que se dava todo, inteiro, em suas disparadas selvagens – e esta era a
força daquele cavalo.
A exemplo dos
animais muito velozes, o potro tinha pouca aptidão para o transporte de cargas.
Trabalhava mal, sem coragem, nem brio, nem gosto. E, como no deserto havia
pasto apenas para sustentar aos cavalos que trabalhavam pesado, o veloz animal
se dirigiu à cidade para viver de suas carreiras.
No princípio,
entregou gratuitamente o espetáculo de sua grande velocidade, pois ninguém
estava disposto a pagar um tostão furado para vê-lo – ignorantes todos do
corredor que havia nele -. Nas belas tardes, quando as pessoas invadiam os
campos próximos da cidade – e, sobretudo, nos domingos – o potro trotava a
vista de todo mundo, arrancava, detinha-se, trotava de novo farejando o vento,
para se lançar ao fim a toda velocidade, entregue a uma carreira louca que
parecia impossível superar e que ele mesmo superava a cada instante, pois
aquele jovem cavalo, como já foi dito, colocava em suas narinas, em seus cascos
e em seu galope todo o seu ardente coração.
As pessoas
ficaram atônitas diante do espetáculo, diferente de tudo o que estavam
acostumados a ver, e se retiraram sem apreciar a beleza daquela carreira.
- Não importa –
disse o potro a si mesmo com alegria -. Vou ver um empresário de espetáculos, e
ganharei ao menos o necessário para viver.
De que tinha
vivido até então na cidade, só ele podia dizer. De sua própria fome,
certamente, e de algum desperdício descartado nos portões dos currais. Foi,
pois, ver um organizador de festas.
- Eu posso correr
diante do público – disse o cavalo – se me pagarem por isso. Não sei o que
posso ganhar, mas alguns homens têm gostado do meu modo de correr.
- Sem dúvida, sem
dúvida... – responderam-lhe -. Sempre há alguém interessado nestas coisas...
Não é questão, porém, sobre a qual se tenha ilusões... Poderíamos oferecer-lhe
um pouco de sacrifício de nossa parte...
O potro baixou os
olhos até a mão do homem, e viu o que lhe ofereciam: era um monte de palha, um
pouco de pasto ardido e seco.
- Não podemos
mais... E mesmo assim...
O jovem animal
considerou o punhado de pasto com que se pagavam seus extraordinários dotes de
velocidade, e recordou a expressão dos homens ante a liberdade de seu galope,
que cortava em ziguezague as pistas trilhadas.
- Não importa –
disse alegremente -. Algum dia irão se divertir. Com este pasto ardido poderei
me sustentar por enquanto. E aceitou contente, porque o que ele queria era
correr.
Correu, pois,
este domingo e os seguintes, pelo mesmo punhado de pasto, a cada vez dando-se
com toda a alma em sua carreira. Nem um só momento pensou em se reservar, em
enganar, seguir as retas decorativas para receber elogios dos espectadores, que
não compreendiam sua liberdade. Começava o trote, como sempre, com as narinas
de fogo e o rabo arqueado; fazia ressoar à terra com seus arranques, para, por
fim, lançar-se a pleno galope, em um verdadeiro torvelinho de ânsia, pó e bater
de cascos. E por prêmio, seu punhado de pasto seco, que comia contente e
descansado depois do banho.
Às vezes,
entretanto, enquanto triturava com sua jovem dentadura os talos duros, pensava
nas bolsas repletas de aveia que via através da janela, no sabor do milho e na
alfafa perfumada que transbordava de outros cochos.
- Não importa –
dizia alegremente -. Posso me dar por contente com este rico pasto. – E
continuava correndo com o ventre cingido de fome como sempre havia corrido.
Pouco a pouco,
contudo, o povo que passeava por ali aos domingos acostumou-se à liberdade de
seu galope, e começou a dizer entre si que aquele espetáculo de velocidade
selvagem, sem regras nem cercas, causava uma bela impressão.
- Não corre pelos
atalhos como é costume – diziam – mas é muito veloz. Talvez tenha este arranque
porque se sente mais livre fora das pistas trilhadas. E se empenha a fundo.
Com efeito, o
potro, de apetite nunca saciado, e que obtinha apenas o suficiente para viver
com sua velocidade ardente, empenhava-se de fato por um punhado de pasto, como
se toda e qualquer carreira fosse aquela que o consagraria definitivamente. E
depois do banho, comia contente sua ração – a ração pouca e minguada do mais obscuro entre os
mais anônimos dos cavalos.
- Não importa –
dizia alegremente -. Em breve chegará o dia em que se divertirão.
O tempo passava,
no entanto. Palavras trocadas entre os espectadores se espalharam pela cidade,
transpassaram suas portas, e chegou enfim o dia em que a admiração dos homens
se assentou confiante e cega naquele cavalo de galope. Os organizadores de
espetáculo chegaram em tropa para contratá-lo, e o potro, agora já em idade
madura, que havia corrido toda sua vida por um punhado de pasto, viu
oferecerem-lhe em disputa, apertadíssimos fardos de alfafa, maciças bolsas de
aveia e milho – tudo em quantidade incalculável – só pelo espetáculo de seu
galope.
Então o cavalo
teve pela primeira vez um pensamento de amargura, ao pensar o quanto teria sido
feliz em sua juventude se houvessem oferecido a ele a milésima parte do que
agora lhe introduziam gloriosamente goela abaixo.
- Naquele tempo –
disse melancolicamente – um só punhado de alfafa como estímulo, quando meu
coração saltava de desejos de correr, teria feito de mim o mais feliz dos
seres. Agora estou cansado.
Com efeito,
estava cansado. Sua velocidade era sem dúvida a mesma de sempre, e também era o
mesmo o espetáculo de sua selvagem liberdade. Ele, porém, já não possuía a ânsia de correr de outros
tempos. Aquele vibrante desejo de se entregar a fundo, que antes o potro entregava alegremente por um monte de
palha, agora precisava de toneladas da mais deliciosa forragem para despertar.
O cavalo triunfante pensava largamente nas propostas, calculava, especulava
profundamente em seus descansos. E quando os organizadores se entregavam por
fim às suas exigências, só então tinha desejos de correr. Corria, ainda assim,
como só ele era capaz de fazer; e voltava para se deleitar frente à
magnificência da forragem ganha.
Cada vez, entretanto,
o cavalo era mais difícil de satisfazer, mesmo que os organizadores fizessem
verdadeiros sacrifícios para excitar, adular, comprar aquele desejo de correr
que morria sob a pressão do êxito. E o cavalo começou então a temer por sua
prodigiosa velocidade, perguntava a si mesmo se deveria entregá-la toda em cada
galope. Correu, então, pela primeira vez na vida, reservando-se,
aproveitando-se cautelosamente do vento e dos largos atalhos regulares. Ninguém
notou o que fizera – ou quem sabe foi até mais aclamado que nunca por isto –
pois todos acreditavam cegamente em sua selvagem liberdade. Liberdade... Não,
já não a tinha. Havia perdido desde o primeiro instante em que reservou suas
forças para não fraquejar no galope seguinte. Não correu mais cruzando a pista,
nem contra o vento. Correu sobre seus próprios rastros mais fáceis, sobre
aqueles ziguezagues que mais aplausos haviam arrancado. E no medo, sempre
crescente, de esgotar-se, chegou um momento em que aquele cavalo de galopes
aprendeu a correr com estilo, enganando, escarceando coberto de espuma pelos
atalhos mais trilhados. E um clamor de glória o divinizou.
Porém, dois
homens que contemplavam aquele lamentável espetáculo, trocaram algumas tristes
palavras.
- Eu o vi correr
em sua juventude – disse o primeiro – e, se alguém pudesse chorar por um animal,
eu o faria em memória do que fez este mesmo cavalo quando não tinha o que
comer.
- Não é estranho
que o tenha feito antes – disse o segundo-. Juventude e Fome são o mais precioso
dom que a vida de um coração forte pode conhecer.
Potro: segue
firme teu galope, ainda que ele apenas te dê o que comer. Pois se acaso chegas
sem valor à glória e adquires estilo para usá-lo fraudulentamente por um
banquete de forragem, o que te salvará é um dia ter te dado por inteiro por um
punhado de pasto.
*Tradução: Daniel Lopes
Horacio Silvestre Quiroga Forteza (Salto, 31 de dezembro de 1879 — Buenos Aires, 31 de dezembro de 1937) foi um escritor uruguaio famoso por seus contos, que geralmente tratavam de eventos fantásticos e
macabros na linha de Edgar Allan Poe e de temas relacionados à selva, sobretudo da região de Misiones, na Argentina,
onde Quiroga passou parte da vida. Sua vida foi bastante atribulada:a morte do
pai quando ele tinha 4 anos,o suicídio do padrasto,a morte do melhor amigo com
um tiro acidental disparado por ele,o suicídio da esposa e de seus 3 filhos.
Sua obra mais famosa são os Cuentos de amor de locura y de muerte (1917; título sem vírgula no original), na qual se
encontra o célebre conto A Galinha Degolada. Em 1937, após ter sido diagnosticado com câncer, Quiroga cometeu suicídio, ingerindo uma dose letal de cianureto.
Assinar:
Postagens (Atom)




